Tenossinovite de Du Quervain


Esta doença ficou conhecida pelo nome do autor que, em 1913, descreveu pormenorizadamente o síndrome. No entanto já no fim do século 19, esta doença tenha sido identificada e descrita como a doença das mulheres lavadoras de roupa.

A Doença de Quervain é tal como o dedo em mola uma tenossinovite estenosante, que na nomenclatura anglo-saxónica é-lhe atribuído o nome de tendovaginite precisamente para tornar claro que a origem da doença está mais na bainha do que no próprio tendão. Os tendões envolvidos são os tendões do primeiro compartimento extensor do punho o qual alberga os tendões do longo abductor e curto extensor do polegar. No punho, estes tendões passam ao lado de uma tuberosidade do radio, à volta da qual mudam de direção: passam de uma orientação oblíqua no antebraço para uma orientação longitudinal depois de ultrapassar a referida tuberosidade. Esta mudança de direção vai provocar um grande atrito entre os tendões e a bainha e retináculo envolvente. Na doença de Quervain, este atrito vai provocar um espessamento reacional da bainha e respetivo retináculo, devido às grandes forças de tensão e compressão que se verificam no local. O espessamento vai originar uma estenose, que por sua vez dificulta a excursão do tendão. Temos a doença na sua plenitude que vai provocar sinovite reativa (inflamação e espessamento sinovial). É uma situação que provoca dor aguda, forte e súbita. Alguns doentes referem uma facada ou pontada, largando por vezes objetos que seguram na mão. É uma situação que tem grande tendência para cronicidade e que em casos tardios podem originar mesmo ruturas tendinosas. Raramente, a doença tem uma resolução (cura) espontânea.

 

O tratamento da doença começa com anti-inflamatórios não esteroides orais e tópicos e uma reeducação postural: o doente aperceber-se dos gestos que lhes provocam dores e evita-los.

Geralmente este tratamento não é suficiente, podendo então ser proposta uma infiltração. A taxa de sucesso da infiltração ronda os 50% dos casos, mas os sintomas podem recidivar mais tarde; nalguns doentes podem surgir uma mancha branca na zona da infiltração devido a atrofia cutânea provocada pelo corticosteroide. A taxa de sucesso da infiltração no Quervain é inferior à de outras tendinites devido à possibilidade de ocorrer subdivisões do compartimento.

A próxima etapa do tratamento é a cirurgia que apesar de ser simples não está isenta de riscos; terá que ser efetuada com todo o rigor. A cirurgia tem como objectivo abrir a bainha e retinaculo tendinoso, libertar o tendão, efetuar tenossinovectomia nos casos de coexistir inflamação/proliferação sinovial. A estabilidade tendinosa deverá ser assegurada.

Uso uma incisão transversal ou ligeiramente obliqua sobre o estiloide radial de 2,5 a 3 centímetros. Não sou adepto de mini-incisões, pois um dos meus princípios é cortar apenas as estruturas que visualizo.

Cuidados a ter durante a cirurgia:

– Identificar o nervo radial sem o tocar, evitando o bisturi elétrico nesta zona.

– A incisão na bainha deve ser feita na sua vertente dorsoradial para evitar a instabilidade tendinosa pos-operatória

– Investigação exaustiva da bainha dos tendões para excluir a possibilidade de um sub-compartimento ou no caso de existir, proceder à sua libertação.

No pós-operatório, os doentes não podem fazer esforços durante 3-4 semanas, sob risco de ocorrer instabilidade tendinosa. Nalguns casos coloco uma tala de gesso.

Este cuidado não impede que o doente seja estimulado a mobilizar activamente os dedos, usar a mão nas tarefas básicas da vida diária (vestir, alimentar-se, tratar da sua higiene, pegar nos objectos, etc) evitando pesos ou gestos muito repetitivos.

Os pontos são retirados entre os 12 e 14 dias pos-op.

Ao usar precocemente a mão, o doente terá uma rápida recuperação. O tempo de paragem ao trabalho é variavel, mas geralmente ronda as 4 semanas; nos trabalhos pesados, a interrupção laboral poderá ser superior.

O prognostico é bom e as recidivas são muito raras

Os resultados expectaveis da cirurgia são bons desde que respeitados as seguintes condições:

– Indicação cirurgica correcta

– Tecnica cirurgica correctamente efectuada

– Seguimento pos-operatório atento