Lesão dos tendões flexores dos dedos


São lesões difíceis de tratar, exigem técnica cirúrgica apurada e associadas a altas taxas de complicações, sobretudo, recuperação incompleta das mobilidades digitais.
Os tendões flexores são os responsáveis pela flexão (dobrar) e situam-se na face palmar da mão e dedos.
Iremos considerar apenas as lesões isoladas, isto é não associadas a esfacelos nem a que fraturas ósseas.
São geralmente provocadas por ferimentos profundas provocados por facas, vidros, porcelanas partidas ou outros objetos cortantes.
O examinado não consegue dobrar 1 ou as 2 articulações do(s) dedo(s)
Deverão ser tratadas durante as primeiras 48 ou 72 horas mas poderão ser diferidas por cerca de 7 dias no caso de conspurcação do ferimento.
Existem vários princípios de tratamento, sendo um dos mais importantes, o respeito pelas pulias A2 e A 4.
As pulias fazem parte das bainhas tendinosas (estruturas que envolvem os tendões no seu percurso distal da palma e nos dedos) e são fundamentais para a estabilização dos tendões e o seu correto funcionamento.
As pulias impedem o afastamento do tendão do osso, maximizando a sua potência flexora.
O diagnóstico é clinico, mandando dobrar as diferentes articulações. Pode ser (muito) difícil nos doentes não cooperantes (crianças, doentes agitados ou etilizados). Há vários métodos clínicos que podem ajudar. Como olhar para a normal posição em cascata dos dedos; outro teste, a pressão da musculatura do antebraço provoca a flexão dos dedos.
Vários métodos de sutura poderão ser utilizado mas o meu preferido é o de kessler-Tajima.

A sutura tendinosa deve ser precisa, meticulosa e resistente:
Precisa e meticulosa para não causar dano adicional nos tecidos circundantes, nem na superfície do tendão e permitir uma superfície lisa para manter a capacidade de deslizamento dentro da bainha tendinosa; resistente, para permitir mobilização ativa precoce.

É obrigatório seguir os protocolos de reabilitação pós-operatória  para recuperação das mobilidades articulares passivas e ativas, principalmente neste tipo de cirurgias que cursam com alta taxa de aderências tendinosas. É importante não esquecer que as aderências fazem partem integrante do processo de cicatrização, mas com uma boa reabilitação, a sua formação é minimizada

Os cuidados operatórios começam na sala de operações com uma hemóstase cuidadosa para evitar hematomas ou outras complicações que possam afetar de forma negativa o resultado final.

Utilizo no pós-operatório uma tala de gesso imobilizando o punho a 45° e as articulações metacarpo-falangicas (MCF) a 35°. Os dedos ficam livres para poderem ser mobilizados quer passivamente, quer ativamente.
Permito e estimulo a mobilização passiva e ativa controlada logo numa fase precoce, ao fim de 2 ou 3 dias.
É importante que o doente acorde a meio da noite para mobilizar os dedos.

O protocolo por mim utilizado geralmente inclui:
– Tala de gesso com membro na posição indicada
– mobilização passiva e permito mobilização ativa precoce cuidadosa desde o 2º ou 3º dia e , desde que a sutura tendinosa tenha ficado resistente
– primeiro penso ao 2° ou 3° dia; segundo penso aos 7-8 dias; retira pontos aos 14 dias
– retiro tala à 5ª semana
Movimentos de flexão ativa dos dedos várias vezes por dia
– inicia fisioterapia a partir da 5ª semana
– exercícios de extensão cuidadosa do punho depois de retirar o gesso
– exercícios de reforço muscular à 7ª ou 8ª semana
– flexão contrariada dos dedos à 8ª semana
– vida sem restrições às 12 semanas