TRANSFERÊNCIASDE FALANGES DE DEDOS DO PÉ PARA A MÃO


Transferências de falanges de dedos do pé para a mão

Em que situações estão indicadas a cirurgia de transferências de falanges dos dedos dos pés para os dedos da mão?

Este tipo de cirurgia está indicada principalmente no tratamento dos defeitos ósseos das deformidades congénitas, quando um ou vários dedos da mão apresentam encurtamento grave ou em casos de ausência de falanges (ver Fig. 1)

Fig.1: Ausencia de falanges (afalangia) de F2 e F3 do 3º e 4º dedo. Criança com indicação para reconstrução das falanges ausentes com transferência de falanges de dedos do pé. Neste Rx podemos confirmar a existência de bolsas cutâneas que deveriam conter as falanges ausentes

Menos frequentemente está indicada em situações de sequelas de traumatismos da mão.

Como é possível retirar umas (ou várias) falanges de dedos do pé e coloca-las na mão?

Nas deformidades congénitas em que existem ausência de falanges, normalmente permanece a bolsa cutânea que deveria conter a falange, que nestes casos se encontra vazia.

Podemos ver na Fig.1, dois dedos com ausência de F2 e F3, mas nos quais permanece a bolsa cutânea que deveria conter as falanges ausentes.
A falange ausente poderá ser substituída por uma falange retirada do dedo do pé, que será colocada na referida bolsa cutânea, segundo uma técnica à frente explicada.

Em que altura deve a operação ser feita?


A operação deve ser feita em fases precoces da vida; eu diria, quanto mais cedo melhor, porque a bolsa de pele do dedo da mão é maior e a falange do pé é mais pequena; (nota que, com o crescimento, a bolsa de pele vazia vai-se retraindo e atrofiando).

A técnica não deverá ser utilizada em idades superiores a 3-4 anos, pois a falange poderá não ser integrada, e ser reabsorvida.

Em que consiste a operação?

A operação consiste em retirar a falange isolada do dedo do pé, apenas com as inserções ligamentares e capsulares da articulação (sem vasos, músculos nem outras estruturas) e colocadas no local da deficiência do dedo da mão.
A falange a escolher depende de vários fatores, nomeadamente, do espaço disponível na bolsa digital e da idade da criança. Geralmente usamos a 1ª falange do 2º ou 3º dedo do pé, que é maior e tem maior capacidade de crescimento. Quando o espaço disponível é pequeno, então utilizamos a 2ª falange do dedo do pé.

A nova falange é fixada temporariamente por fio k e suturamos as inserções ligamentares e capsulares para uma melhor estabilização (ver fig. 16).
A operação tem como objetivo aumentar o tamanho do dedo da mão e portanto pretende-se melhorar a função e o aspeto estético.

Uma vez na mão, a falange transplantada tem capacidade de movimentos?

Quando a falange é transferida para substituir a primeira falange ausente, geralmente readquire mobilidade. Quando vai substituir a 2ª ou 3ª falange do dedo da mão, a possibilidade de manter movimentos é menor.

Quantos dedos podem ser operados no mesmo ato cirúrgico?


As transferências de falanges dos dedos do pé podem ser usadas no mesmo tempo cirúrgico para reconstruir até 4 dedos da mão.

Ver 3 séries de figuras que ilustram 3 casos clínicos:

– 1º caso: ausência de falanges num dedo

– 2º caso: ausência quase total de falanges em 2 dedos

– 3º caso: ausência total de falanges em 4 dedos

Caso 1:

Uma menina com ausência de F2 do indicador. Apresentava dedo consideravelmente mais curto (Fig. 2); extremidade do dedo (zona da polpa e unha) instável, devido a falta de suporte de F2 (Fig. 3), provocando-lhe grande dificuldade em agarrar objectos com o dedo indicador.

Fig. 2 e Fig. 3: Afalangia do indicador. Imagens pre-op. Ver descrição no texto (caso 1)

Efetuado transferência de F2 de dedo do pé. O dedo ficou mais comprido cerca de 1,5 cm (Fig. 4), mas o principal benefício foi funcional pois a cirurgia restabeleceu o esqueleto completo, tornado o dedo estável (Fig. 5). Apos a operação, o dedo indicador recuperou a capacidade de agarrar e segurar objectos

Fig. 4 e Fig. 5: Resultado Pos operatório. Ver descrição no texto (caso 1)

Caso 2

Menina com 3º e 4º dedos muito curtos (Fig. 6) provocado por ausência parcial de F1 e ausência total de F2 e F3 (Fig. 7). Nesta imagem podemos observar as referidas bolsas cutâneas sem falanges.

Fig. 6 e 7: D3 e D4 da mão muito atrofiados; F1 rudimentar e ausência de F2 e F3

Transferimos a 1ª falange do 3º e 4º dedo do pé.

Para além do benefício estético com um incremento considerável no tamanho dos dedos (Fig. 8), verificou-se uma melhoria acentuada da função, proporcionando capacidade de preensão àqueles dedos (Fig. 9).

Fig. 8 e 9: Resultado Clínico e Radiológico da transferência de falanges de dedos do pé para a mão. No Rx podemos observar a falange transferida e integrada

Como poderemos ver, o pé teve um prejuízo estético mínimo sem qualquer limitação funcional (Fig. 10)

Fig. 10: Resultado estético do pé dador de falanges. Neste caso, as falanges transferidas foram F1 do 3º e 4º dedos do pé. Dano estético mínimo e sem qualquer dano funcional

Caso 3

Menina com ausência de todas falanges dos 4 dedos longos (D2-3-4-5) da mão, com polegar normal; D2 e D3 tinham vestígios de pequenas porções de F1 muito atrofiado (ver Fig. 11).

Na altura da cirurgia, possuía bolsas cutâneas capazes de receber as falanges do pé.

Procedemos à transferência de 4 falanges de dedos do pé para a mão (a Fig. 12 mostra imagem de Rx com falanges transferidas do pé e fixadas com fios K).

Novamente houve um benefício estético e funcional. Os dedos ganharam comprimento, impediram que as bolsas cutâneas desaparecessem e mão ganhou funcionalidade (Fig. 13)

Fig. 11 Fig. 12 Fig. 13

Fig. 11 menina com ausência de falange Dos dedos longos; falanges rudimentares em F1 de D2 e D3; Mão contra-lateral saudável
Fig. 12 Falanges de dedos do pé transferidas para os dedos da mão e fixadas com fios K
Fig. 13 Resultado 4 anos apos a cirurgia

Existem outras situações onde possam ser efetuadas transferências de falanges de dedos do pé?

Menos frequentemente, estas operações podem ser usadas noutras situações, tais como:

1 – sindactilias complexas com falta de uma falange. A ausência de falanges nas sindactilias complexas, obriga geralmente à amputação do dedo, no momento da separação.

Aqui apresentamos um caso de sindactilia complexa, com união de todos os dedos; ausência do anelar e dedo medio atrofiado com ausência de falanges. (Fig. 14). Conseguimos reconstruir o 3º dedo à custa da transferência duma falange do pé.

Fig. 14 Sindactilia complexa; união de todos os deos com ausência do dedo anelar e falta de falanges do dedo médio

Num primeiro tempo cirúrgico, separamos o polegar e o dedo mínimo (Fig. 15)

Fig. 15 Apos separação do polegar e do quinto dedo

Neste doente evitamos a amputação do 3º dedo, ao reconstruir a estrutura esquelética com uma falange transferida do pé (Fig. 16, 17 e 18).

Fig. 16 Apos separação do 3º dedo e reconstrução óssea com falange do pé; fixação com fio k

Fig. 17 e 18: Imagem da mão apos as cirurgias

2 – Em casos muito específicos de hipoplasia do polegar com falta de desenvolvimento da base do 1º metacarpiano (Fig. 19).

Fig. 19 Falha de desenvolvimento do polegar com ausência da porção proximal do 1º metacarpiano

Reconstruimos o polegar desta criança com uma falange transferida do pé Fig. 20 e 21)

Fig. 20 Reconstrução do 1º metacarpiano com parte de falange transferida de dedo do pé
Fig. 21 Polegar reconstruído 23 anos apos a cirurgia

O pé fica com algum defeito?

O defeito do pé é mínimo e nunca existe qualquer repercussão funcional (ver Fig. 10)

Os resultados são garantidos?

Não há cirurgias com garantia de resultados.

Este tipo de cirurgias está sempre associado a um número não desprezível de complicações:

A falange pode não crescer ou ser reabsorvida; isto implica que o dedo não vai crescer o que seria expectável.

A falange pode sofrer um desalinhamento, o que irá provocar um encurvamento do dedo; geralmente este desalinhamento é pequeno e normalmente, pouco percetível. Em casos raros, o desalinhamento é maior e pode precisar de uma reintervenção.

A complicação mais temida ocorre quando a falange á demasiado grande. Vai faz muita pressão na pele, rompendo-a e leva secundariamente à exposição da falange transplantada (a falange fica à vista). Tal complicação pode ser evitada se escolhermos bem a falange a transferir; isto é, escolhendo uma falange mais pequena para que se possa efetuar o encerramento da pele com pouca tensão. Esta é uma das razoes para aconselhar a operar a criança precocemente; a bolsa cutânea é maior e as falanges são mais pequenas.

Se tivermos todos estes cuidados, os resultados são bons, mas temos que ser sempre realistas: a falange nunca vai crescer mais do que aquilo que estaria previsto crescer no pé.